Triste

A noite estava fria e a garoa fina caia sem parar há 12 horas, é nesse tempo que as pessoas se escondem, que as famílias finalmente trocam alguns olhares distantes em frente a patética programação da televisão no domingo.

Para Gabriele era um momento diferente, o silencio da rua, outrora movimentada a deixava sozinha com seus maiores inimigos, seus pensamentos.

Nem os braços talhados pelas laminas faziam verter lágrimas de seus olhos, já havia passado três anos.

Na noite de 12 de outubro Paulo seu ex-namorado invadiu sua casa bradando palavras agressivas, afirmando que ela não tinha o direito de terminar com ele; Paulo então a empurrou no sofá, subiu em cima dela e disse que ela faria o que uma boa namorada faz.

Os gritos de desespero da garota chamou a atenção de seu pai que desceu as escadas correndo ao encontro do agressor, que se virou em um feroz movimento desferindo um golpe com o abajur de cobre na cabeça do homem que caiu zonzo no carpete, tempo suficiente para Paulo retirar a arma da cintura e disparar três vezes contra o peito do velho pai.

Gabriele não gritou ou falou, seu corpo inerte olhava a cena como se já não respirasse e o único sinal de vida eram as lagrimas que rolavam pela sua face.

Nos minutos que se sucederam Gabriele teve seu corpo tomado, e com voracidade que jamais poderia compreender, mas seu corpo não se movia e ela nem sentia nada, não existia dor ou gosto, não existia nada…

Olhando a rua e a garoa ali da janela do segundo andar tudo se repetia infinitamente na sua cabeça, mas ela se recusava a abandonar o passado, sua mãe depois de meses de tratamento tentou convence-la a se mudar, mas para Gabriele em qualquer parte do mundo sua alegria já não tinha mais endereço.